Eu era o Matheus, eu sou o Matheus

A minha história é mais sobre minhas fugas internas, sou um homem trans em processo de transição, digo em processo porque é a primeira vez que escrevo sobre ser abertamente. Estou em T a 3 meses, sendo trans a 26 anos.
O inicio de tudo foi como a maioria dos meninos trans, na infância. A sensação de fazer parte do grupo dos meninos, de ser um deles.
E eu realmente fui, brincava muito, foi uma infância muito gostosa, meus pais não me impediram de ser do jeito que eu era. Consigo sentir a felicidade ate hoje de ter ganho a fantasia do Robin e meu primo o Batman, era aquelas fantasias antigas que tinham o peitoral e abdômen de enchimento.
Mas vivemos em um mundo machista, senti isso bem claro na minha adolescência, eu perdi meu lugar com os garotos, eu tive que lutar para me enquadrar com as meninas, não tive muito sucesso. Andava muito sozinho, ficava na quadra nos intervalos para disfarçar essa rejeição que vivia, meu incomodo de entrar em banheiros femininos começo nessa época, eu entrava e saia o mais rápido possível, como se ali não fosse meu lugar. É uma luta tão grande para ser aceito que, que você começa a se distancia do teu próprio eu.
Estudava em colégio de freira, isso me fez dar importância sobre representatividade, porque não tive nenhuma. Todas as coisas que eu sentia, ninguém fazia, ninguém falava, ninguém sentia. E tudo ficou mais assustador quando eu fiquei a primeira vez com uma menina, porque eu gostei muito, mas tirando aquela menina eu não conhecia nenhuma menina que ja tinha ficado com garotas. Eu morava em Vargem Grande Paulista, na época que internet era discada, ou seja, sem muitas informações. Neguei gostar SÓ de garotas até o penúltimo ano de faculdade, foram 5 anos de negação.
A bissexualidade para ambos os sexos, é lida de uma forma muito diferente. São invalidados de formas diferentes, para o homem ele é gay e pronto, para a mulher é uma fase. Perdi a conta quantas vezes que invalidaram que eu realmente só gostasse de mulher, chega uma hora que você ate acredita mais nos outros que você mesmo. E por invalidarem tanto, eu também já invalidei a bissexualidade, depois que me assumi lésbica. É muito fácil você reproduzir comportamentos, sempre temos que estar atentos, se queremos realmente um mundo com igualdade.
Na faculdade me assumi lésbica. Achei que tinha zerado a vida, que todos os meus problemas íntimos teriam cessado. Realmente foi uma libertação, depois de um tempo eu não conseguia entender porque tinha demorado tanto para me assumir, era libertador, eu tinha orgulho de ser lésbica. Por muito tempo fez sentido, mas quando eu comecei a me relacionar amorosamente, de uma forma duradoura algumas coisas não encaixavam.
Como eu iria me encontrar, se na minha cabeça já tinha chego no meu lugar, mesmo não estando?
Por algum motivo que eu ate hoje não sei, coloquei na cabeça que queria viajar pra fora, um tempo depois que terminei a faculdade, já estava trabalhando, morava com meus pais. Essa era a hora de eu juntar dinheiro e viajar, conhecer pessoas novas, talvez o Brasil não fosse meu lugar, essa opressão de como eu me vestia e me portava era muito constante.
Fiz um plano de juntar dinheiro 10 meses, nesse meio tempo eu me apaixonei por uma garota, que me tirou do eixe, sabe aquela paixão tão intensa, que acaba porque não supera o declínio da intensidade. Fui viajar sozinho pra Portugal/Espanha de mochilão, era a viagem que eu queria a tanto tempo, não sabia que ali iria começar o período mais difícil da minha vida. Ali eu descobri que era um homem trans, que existia essa possibilidade, que tudo que alguns meninos sentiam, eu também sentia.
Quando voltei determinado a fazer a transição, as minhas sombras de querer sempre agradar os outros, de ter dificuldade de magoas expectativas dos outros, veio a tona. Não consegui, porque não era um cara com diálogos profundos com meus familiares, meus amigos eram tão preconceituosos quanto eu e meu relacionamento acabou depois dessa revelação.
Pra ser sincero, eu não consigo dar um conselho sobre esse momento, que você esta de frente com quem você e quem gostaria de ser mas não consegue, tem coisas na vida que você só passa, dias bons, dias ruins, tristezas que parecem intermináveis...
Você se acostuma a não ouvir a si mesmo, porque dói, te ensinam a seguir um modelo que ninguém consegue saca?
Nesse meio tempo, fui atrás de saber o que eu gosto, o que não gosto, quem eu realmente gostaria de ser. Primeira grande mudança fui morar com um amigo, que foi uma das maiores alegrias da minha vida. Ali eu aprendi o que realmente é ser um homem, que os homens sentem, choram, tens suas dificuldades. Um irmão que vou levar para vida toda.
Toquei em um bloco de carnaval, que chama “siga bem caminhoneira”, joguei futebol no “migas”, fui em muita festa lésbica. E tudo isso só me confirmou que ali não era o meu lugar, eu não era como aquelas garotas, as admirava muito, mas eu não era.
Eu era o Matheus, eu sou o Matheus.
Nesses dois anos, eu casei com a garota mais sensível e companheira que alguém poderia ter. Estudei muito sobre machismo, masculinidade toxica, misógina.
Eu queria viver o mundo lésbico, eu queria mostrar a força da mulher e ainda mais a força da mulher sapatão, que elas podem ocupar o lugar que quiserem. Mas esse não é meu lugar de fala, meu lugar de fala é como homem trans e está tudo bem.
Se eu pudesse dar um conselho sobre tudo, seria busque informação, pare de ouvir e reproduzir a opinião dos outros. Talvez eles não reflitam como eles se sentem, talvez eles só reproduzam, o que já disseram a eles. Estude para que você saiba qual o seu lugar de fala, que o mundo precisa sim de pessoas diferentes, mas que se respeitem.

Sobre o autor:

Matheus Machado
Homemtrans
26 anos
Formado em ed.física, Personal trainer
Voluntário no projeto EternamenteSou, que trabalha com idosos lgbtq+


1 comentário

  • Jaque

    Eu amo esse homem! 🥰

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